Alto Palacio x Serra dos Alves
Parque Nacional da Serra do Cipo, MG
3 dias - abril/2019
 Início

Acampamentos

Os pernoites na travessia são feitos em acampamento selvagem. Apesar dos nomes dos pontos de pernoite sugerirem alguma estrutura disponível, é fundamental o uso das barracas. Primeiramente porque as instalações são muito precárias, depois porque há chance de alguém já tê-las ocupado e finalmente porque constituem um patrimônio histórico da região que merece ser preservado.

Casa de Tábuas

Acampamento Casa de Tábuas

O acampamento Casa de Tábuas fica num amplo descampado, onde passa um córrego e existe uma antiga casa de madeira. Apesar da ampla área livre, o terreno possui muitas irregularidades, pedras e mato suficientemente alto para restringir os espaços apropriados para as barracas. Segundo os relatos, o córrego é perene. Entretanto, não tem grande profundidade. É o suficiente para coletar água para beber e preparar as refeições. Estando com muita vontade de tomar banho, é possível, mas não há nenhum poço muito convidativo.

A Casa de Tábuas

A casa de tábuas propriamente dita é bem pequena e está em péssimo estado. Na frente da casa há uma pequena varanda onde é possível pendurar algumas roupas para secar, abrigadas do sereno. Não entrei na casa, mas os amigos que visitaram nem sequer se animaram de cozinhar lá dentro. Segundo eles, o espaço era pouco e o estado de conservação muito ruim. Há um cano de PVC na frente da casa, certamente desviando água do córrego, mas não estava funcionando. Também não existe nenhum tipo de instalação sanitária disponível no local.

Casa dos Currais

Área de acampamento nos Currais

É uma área de capoeira, mais abrigada do que a área da Casa de Tábuas. Ao chegar no local no deparamos com a antiga casa que dá nome ao local. Bem na sua frente, havia uma área de mato baixo que parecia ruim para acampar e nos desanimou, por alguns segundos. Logo depois da cerca chegamos a um gramado que imediatamente melhorou nosso humor. Várias áreas bem planas, com grama baixa, ao lado de um córrego pequeno, mas super agradável. Ali existem poços para banho e até uma pequena queda d'água que nos proporcionou uma excelente hidromassagem. Uma área definitivamente muito melhor do que a Casa de Tábuas.

A Casa dos Currais

A casa dos currais propriamente dita é também maior, e está em melhores condições, do que a Casa de Tábuas. Possui uma pequena sala e uma cozinha com bancos e mesa de madeira. Chegamos a preparar nosso jantar abrigados ali dentro, mas o estado do local não era nada convidativo para o pernoite ali dentro. Preferimos nossas barracas. No lado de fora, um cano de PVC facilita a captação de água para o preparo das refeições. Existe também uma pequena varanda, onde dispusemos nossas roupas para secar abrigadas do sereno. Não há nenhuma instalação sanitária no local.

Clima e água

Climatologia da Serra do Cipó
Foto: Climatempo

Realizamos a travessia no mês de abril, final do período de chuvas na região. As temperaturas médias para este mês ficam entre 17°C e 24°C, e são esperados 76mm de chuva acumulados. A maior parte do trajeto se desenvolve na altitude média de 1500 metros acima do nível do mar. O ponto mais alto do percurso tem 1675 metros e o mais baixo 780 metros. O bioma da região é o cerrado, predominantemente os campos rupestres. Com isso, a trilha é sujeita a alta insolação e ventos, o que faz a sensação térmica extrapolar um pouco a faixa da temperatura real.

O cenário que encontramos em campo foi bem fiel às expectativas. No primeiro dia tivemos cumulus humilis e stratocumulus enfeitando o céu para belas fotos e, simultaneamente, permitindo o Sol nos castigar na caminhada. Nos dois dias seguintes, tivemos stratocumulus, stratus e nimbustratus dando uma amenizada no calor e garantindo breves períodos de chuva leve. Durante o dia, as temperaturas giraram em torno de 24, 25° C, à sombra. Durante à noite ficaram entre 12 e 15°C.

Visual deixando Alto Palácio

Em ambas as noites fomos presenteados com céu estrelado e lua cheia. Na Casa de Tábuas, com amplo campo de visão, além das estrelas e da lua observamos também raios de uma tempestade iluminando o horizonte a quilômetros de distância. Felizmente, no dia seguinte tivemos apenas um breve período de chuva fraca causado pelas nuvens baixas que logo se dissiparam com o vento. No último dia de caminhada, enquanto nos aproximávamos do Cânion Boca da Serra, a chuva veio com mais vontade, mas sem inspirar grandes preocupações. Alcançando a Cachoeira da Luci, já estávamos sem chuva.

A elevada umidade do ar e as noites de céu aberto garantiram bastante orvalho durante a madrugada. Nossas roupas molhadas do rio acordavam ainda bem úmidas, mesmo protegidas embaixo do telhado das instalações durante a noite. A desmontagem das barracas era um processo trabalhoso. Os sobretetos acordavam encharcados, tanto na parte externa quanto na parte interna.

Córrego ao lado do acampamento Casa dos Currais

Durante os estudos para esta travessia, encontrei relatos de que a água é abundante e outros de que a água é escassa. Provavelmente essa disparidade se deve ao fato de que a região possui uma época de estiagem e uma época de chuvas. De qualquer forma, o consenso é que nos pontos de pernoite existe água abundante. Por estarmos saindo da temporada das chuvas, não tivemos dificuldades em encontrar água nos pontos intermediários. A trilha não é extremamente bem favorecida neste sentido, mas pelo menos a água estava presente na maioria das indicações dos tracklogs que utilizamos como referência. Salvo algumas poucas exceções, estes pontos intermediários costumam ser córregos bem estreitos onde correm filetes de água. Não é à toa que secam na época de estiagem. Na dúvida, o recomendável ao planejar essa travessia seria sair para as caminhadas sempre com água suficiente para alcançar o próximo ponto de pernoite.

As Cachoeiras

Cachoeira da Luci

Antiga Pousada da Luci

O acesso a esta cachoeira se dá já na descida do Cânion Boca da Serra, depois da Casa Verde e antes das ruínas da Pousada da Luci. É necessário tomar uma trilha secundária, que corre pela parede do cânion no sentido oposto ao da travessia, por cerca de 500 metros. A trilha é estreita, não muito indicada para fazer com as mochilas cargueiras. Ela leva até a parte superior da cachoeira, onde há um poço bem pequeno para banho, colado à queda d'água, estilo "Janela do Céu" de Ibitipoca.

Já na parte inferior, existe um poço grande para banho. Quando chegamos não entendemos como acessá-lo. Mas depois reparamos que poucos metros antes da chegada no topo da cachoeira, existe um início de trilha que, ao que tudo indica, leva para a parte inferior. Essa trilha de descida parece ser mais íngreme e exposta do que a trilha principal. Como nosso tempo era restrito, não fizemos esta exploração. No topo existe também uma (única!!!) chapeleta rapelável.

Cachoeira dos Cristais

Parte superior da Cachoeira dos Cristais
Foto: Patrícia Carvalho

Essa possui o acesso bem mais fácil e um belo poço para banho. Sem dúvida melhor "custo/benefício" do que a da Luci. A trilha de acesso (íngreme mas transitável com as cargueiras) se inicia 300 metros após as ruínas da Pousada da Luci e possui apenas uns 50 metros de extensão. Após iniciar a descida, tomar a esquerda na bifurcação. Logo você estará no topo da Cachoeira dos Cristais. Seguindo contra o fluxo da água há uma boa área para banho. Atravessando o rio próximo à queda, é possível descer pelas pedras, sem grande dificuldade, para acessar o poço inferior. Tanto para transitar na parte superior quanto na descida para o poção é importante bastante cuidado com as pedras bastante escorregadias. A queda d'água estava forte, assim como a correnteza. O local do poço é confinado. É bom ficar atento ao fluxo da água.

Reservas junto ao Parque Nacional

Para realizar a travessia é necessário solicitar autorização junto ao Parque Nacional da Serra do Cipó através do site Ecobooking. As reservas precisam ser feitas dentro de uma janela de, no mínimo, 3 dias de antecedência e, no máximo, 30 dias de antecedência. É necessário que todas as datas de pernoites estejam dentro dessa janela, caso contrário, o sistema não emite a autorização.

Achei curto o intervalo máximo de 30 dias para quem precisa comprar passagens aéreas, em especial nos feriados. Entrei em contato com o gestor do Parque para conversar sobre isso e ele prometeu revisar este critério. Ele foi muito solícito, mas não sei se já foi implementada alguma mudança.

Para fazer as reservas, será necessário informar nome completo, data de nascimento, endereço, documento de identificação, telefone, e-mail, contato de emergência de todos os visitantes. É bom reunir todas essas informações antes de entrar no site, pois será necessário informá-las todas de uma vez para efetivar o agendamento.

Transportes

Graças a experiência que tivemos com a Travessia Lapinha x Tabuleiro em 2017, resolvemos desta vez voar do Rio para o aeroporto de Confins e no basear na cidade de Lagoa Santa. Lagoa Santa fica ao lado do aeroporto, e dispensa a passagem por dentro de Belo Horizonte para acessar o início da travessia. De Lagoa Santa para a portaria Alto Palácio, são 1,5 horas de viagem. De Serra dos Alves para Lagoa Santa, gastamos 3 horas e 20 minutos, incluindo meia hora que perdemos parados num engarrafamento por acidente na estrada.

Para os translados entre Lagoa Santa e as extremidades da travessia, contratamos uma van. Mais uma vez contamos com o Paulo, que nos atendeu muito bem em 2017. Paulo nos cobrou R$ 1.400,00 para os dois translados. Era uma van de 15 lugares, bastante confortável. Desta vez, quem dirigiu foi o Itamar, que foi bastante pontual e atencioso com o grupo. Repetindo aqui os contatos: (31) 98565-4470 / (31) 99795 1056 / adriaturismo@hotmail.com.

Hospedagem

Para as noites pré e pós travessia, nos hospedamos no hotel Supreme Choice Confins. A escolha se baseou na praticidade e preço. O hotel fica a 9 Km do aeroporto, oferece serviço de translado de/para o aeroporto, possui restaurante e preço baixo. Tudo que precisávamos para possibilitar uma ponte rápida entre o Rio de Janeiro e a travessia.

A experiência no hotel foi razoável. As instalações são muito boas mas o atendimento é nulo. Os funcionários estavam ali apenas para passar o cartão de crédito. O café da manhã foi razoável. O cardápio do restaurante bem restrito. Em uma próxima oportunidade tentaria encontrar uma outra alternativa com custo/benefício melhor. Mas na falta de opção, repetiria a escolha por conta da praticidade e custo reduzido.

Dica: Ficar atento aos horários limites das saídas do translado do hotel e do aeroporto. Para as saídas a partir do hotel, é necessário pré-agendar com 2 horas de antecedência.

Serra dos Alves

Pousada Portal da Serra

Serra dos Alves é um vilarejo no município de Itabira. Suas ruas são de barro, volta e meia cruzadas por gente simples em seus cavalos. Não tivemos muito tempo de explorá-la, mas o rápido contato foi suficiente para desenvolver uma grande simpatia pelo local. Semanas antes da viagem havia descoberto na Internet a Pousada Portal da Serra, administrada pela D. Ana e Sr. Francisco. Na ocasião conversei com Francisco por telefone, que foi muito atencioso e contou da existência de 27 cachoeiras e 2 cânions na região. Às vésperas da viagem tentei contato novamente para agendar um almoço pós travessia para o grupo, mas não tive sucesso. Mesmo assim, decidimos passar na Pousada.

Chegamos no final da tarde, de surpresa, e fomos super bem recebidos pela Meire, a quem somos gratos por sua hospitalidade. Ela nos preparou um lanche maravilhoso. Se o lanche em cima da hora foi daquele jeito, ficamos imaginando como seria a refeição pré agendada! Serra dos Alves entrou para a lista de lugares que eu pretendo voltar para conhecer com mais calma. E certamente tentarei me hospedar na Pousada Portal da Serra. Não só pela ótima recepção que tivemos como também pelo ambiente, muito bem decorado e aconchegante. Deixo aqui os contatos: (31) 99645-2750 / (31) 98682-0136.

Por: Ângelo Vimeney
Publicado em: 28/04/2019

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