Grand Teton National Park
Wyoming, EUA
8 dias - ago/2019

Parte II

02/09) Teton Crest Trail Day #3

O Sunset Lake com a Battleship Mountain ao fundo

Às 8:50 começamos a caminhada, pouco a pouco ganhando altitude e deixando a Alaska Basin para trás. Quarenta minutos depois, alcançamos um amplo vale onde se via o Sunset Lake com a Battleship Mountain ao fundo. Um lindo visual para os primeiros minutos de percurso. A área teria sido uma excelente alternativa ao acampamento junto aos Basin Lakes. Atravessamos o vale e, do outro lado, começamos a ganhar altitude rumo ao Hurricane Pass. Agora tínhamos às nossas costas o Sunset Lake e à nossa esquerda a curiosa Battleship Mountain. Chegamos aos 3210 metros de altitude, segundo ponto mais alto do nosso percurso, perdendo apenas para os 3260 metros da Paintbrush Divide, que alcançaríamos no dia seguinte. Agora, o cenário era árido. O chão coberto de cascalho e a neve ainda acumulada nas margens da trilha atestavam nossa altitude elevada.

O Schoolroom Glaciar com os Grand Tetons ao fundo

Ventava bastante quando chegamos ao Hurricane Pass. O lugar é incrível! Bem à nossa direita, avistamos o Schoolroom Glaciar, que recebe este nome por ser um glaciar que evidencia todas as características típicas dessa formação geográfica. A trilha se direciona para o glaciar e durante a descida é possível um breve desvio para se alcançar a sua placa de gelo! Fora o visual do glaciar em si, o local impressiona pela beleza do cânion South Fork Cascade, bem à frente, e pela proximidade dos três Tetons. Prosseguimos a caminhada descendo o South Fork Cascade. Aos poucos o ambiente verdejante dos fundos dos cânions, que já se tornava familiar para nós, começava a retornar. Sempre a nossa direita, podíamos observar os Tetons. Nas estradas do parque, sempre observamos o lado leste dessa formação. Agora estávamos tendo a oportunidade de conhecer o lado oposto.

Avançando pelo South Fork of Cascade Canyon

Nosso permit definia nosso terceiro pernoite no South Fork Cascade. A encosta pedregosa e íngreme do cânion não estava favorecendo o estabelecimento de acampamento. Logo alcançamos o limite da área determinada e achamos um campsite já ocupado por um grupo. Foi necessário retroceder uma centena de metros a procura de outra área para o pernoite. Acabamos ficando com um campsite com solo rochoso, que exigiu um pouco de improviso para a montagem das barracas. Mas tínhamos o rio correndo do nosso lado e o visual de uma bela cascata de água de degelo descendo das montanhas. Finalizamos a caminhada às 14:45. Tínhamos tempo de sobra para preparar o jantar, jogar algumas partidas de cartas e descansar para o dia seguinte, que prometia ser o mais exigente da travessia.

03/09) Teton Crest Trail Day #4

Às 07:55 iniciávamos nossa caminhada. Em 20 minutos chegamos à bifurcação para o Cascade Canyon/Jenny Lake, local que havíamos conhecido no nosso primeiro dia de caminhada no parque. Naquele ponto, uma interseção em Y, deixamos a trilha Cascade South Fork e tomamos a Cascade North Fork. Essa última percorre o braço norte do cânion subindo em direção ao Solitude Lake. O dia estava lindo e a temperatura amena, perfeita para a caminhada. À medida que avançávamos por mais esse cânion em forma de U, apreciávamos as cores da vegetação, das flores, das águas e das paredes rochosas iluminadas pelos raios de sol da manhã. Às nossas costas, o Grand Teton com resquícios de neve, ainda à sombra. A cada dia que passava, a Teton Crest Trail conseguia nos surpreender com paisagens mais bonitas.

Avançando dentro do North Fork Cascade rumo ao Lake Solitude

Às 10:00 alcançamos o final do cânion, um anfiteatro rochoso onde o Solitude Lake está perfeitamente assentado. O local é lindo e chama atenção pela grande sensação de tranquilidade. Caminhamos até a margem do lago, onde deixamos as cargueiras e nos pusemos a observar as suas águas perfeitamente cristalinas na sua bacia de rocha polida. Depois, começamos a tentar localizar a continuação da nossa trilha. Como conseguiríamos vencer as paredes do final do cânion? Percebemos que, à frente, a trilha faria uma curva de 180°. Então, começaria a subir gradativamente pela parede leste do cânion. Retornaríamos quase 2 Km na direção de onde tínhamos vindo, porém ganhando 250 metros de altitude. Depois, ainda teríamos alguns zig zags até finalmente deixar a parede do cânion e chegar na Paintbrush Divide, ponto mais alto da travessia.

Subindo a lateral do North Cascade Canyon. Ao fundo, o Lake Solitude.

A subida parecia interminável, mas o visual do Lake Solitude ficando para trás e o cânion North Fork Cascade se desenhando a medida que ganhávamos altitude valiam muito o esforço. A neve surgiu novamente acumulada sobre o solo e, bem à nossa frente, a Paintbrush Divide: Uma espécie de mureta rochosa separando o Cascade Canyon do Paintbrush Canyon. Era irresistível continuar avançando em sua direção para conquistar o visual "do outro lado do muro". Finalmente, ganhamos a posição e o visual foi realmente maravilhoso. Montanhas pontiagudas por todos os lados, circundadas por cânions esculpidos por glaciares, resquícios de neve e lagos de degelo. Ao longe víamos ainda o traçado da nossa trilha, descendo em direção ao Paintbrush Canyon por uma encosta íngreme. Prosseguimos cautelosamente, pisando sobre o cascalho escorregadio. Mais à frente, tivemos que fazer uma breve travessia sobre a neve acumulada na encosta. O lugar inspira atenção. Entendemos porque o Parque recomenda o uso de grampons e piolet nas épocas do ano em que a neve ainda não derreteu.

Iniciando a descida da Paintbrush Divide rumo ao Paintbrush Canyon

Chegamos ao chão do Paintbrush Canyon, e iniciamos a sua descida em direção área de acampamento Upper Paintbrush Canyon. Em certo momento, a trilha se bifurca, seguindo ou pela margem do Holly Lake, ou afastada do lago, pelo sul. Fizemos a primeira opção, para conhecer o lago. A trilha é muito bonita, em especial quando se começa a avistar o Holly Lake e, ao fundo, o Leigh Lake. Chegamos ao lago após uma descida relativamente íngreme e relaxamos um pouco observando suas águas tranquilas e transparentes. Seguimos nosso caminho por não mais do que 20 metros após o lago e paralisamos. Um enorme urso atravessou a trilha à nossa frente, seguido por um filhote. Os animais deviam estar a uns 30 metros de distância. Felizmente, dessa vez o grupo estava bem próximo, e logo nos reunimos por segurança. Começamos a recuar vagarosamente, enquanto avaliávamos a situação.

Iniciando a descida do Paintbrush Canyon. Ao fundo, o Rockchuck Peak, o Mount Saint John e o The Jaw.

Eles sumiram por alguns instantes e, em seguida, a fêmea surgiu nos encarando. Um filhote cruzou a trilha novamente, fazendo a alegria dos amigos que não haviam visto a primeira travessia. A identificação da espécie do urso foi difícil dessa vez. O tamanho expressivo da fêmea e a corcunda protuberante, nos levou a pensar-se em um urso pardo. Já o focinho alongado indicava um urso preto. Independentemente da espécie, um encontro tão próximo com uma fêmea acompanhada de filhotes inspira sérios cuidados. Apesar do cansaço do grupo, decidimos retornar toda a ladeira que tínhamos acabado de descer para chegar ao Holly Lake e então tomar a bifurcação para a trilha sul. Mesmo com esse desvio da rota, precisaríamos continuar alertas pois a trilha alternativa ainda passaria a menos de 450 metros do ponto onde estavam os ursos. Para completar, notamos a presença de Whitebark Pines no caminho, uma importante fonte de alimentação para esses animais nessa época do ano e, portanto, mais um sinal de alerta.

Ursa próxima ao Holly Lake
Foto: Patrícia Carvalho

Quando tomamos a trilha alternativa, percebemos também que a indicação da área de acampamento existente na nossa carta topográfica não estava coincidindo que as placas que encontramos. Ao final da travessia, descobrimos que nossa carta estava desatualizada. O Parque havia alterado as áreas de acampamento. Quando chegamos a esta conclusão, no entanto, já estávamos longe demais para retornar. Com o grupo cansado, o horário avançado e um companheiro com uma enorme bolha no calcanhar, decidimos que era hora de começar a encontrar um ponto para acampar, ainda que fora da área delimitada. Estávamos descendo a lateral do cânion, a trilha estreita percorria uma encosta relativamente longe do rio e bastante acidentada. Em certo momento achamos um terreno plano e paramos para avaliar. A região era sombria, com água parada e grandes pegadas de urso impressas na lama. Apesar da necessidade de parar, com esse cenário não tivemos outra alternativa a não ser continuar caminhando a procurar de ponto melhor.

Acampamento no Lower Paintbrush Canyon

Finalmente, acabamos por entrar na área Lower Paintbrush Canyon e paramos no primeiro campsite disponível. O lugar era bem abrigado entre as árvores, com solo bom para a montagem das barracas e com acesso fácil ao rio, que por sinal era bastante caudaloso naquele ponto. Já eram 17:00. Rapidamente montamos acampamento e partimos para os procedimentos do jantar. Estávamos mais cansados do que ao final dos outros dias. E um pouco decepcionados por termos avançado tanto dentro do trecho que seria percorrido apenas no dia seguinte. Acabamos fazendo o percurso apreensivos e desgastados da caminhada. Mas logo lembrávamos dos cenários fantásticos que havíamos atravessado ao longo do dia, e do nosso segundo encontro com os ursos na viagem. No final das contas, haviam motivos de sobra para estarmos muito felizes.

04/09) Teton Crest Trail Day #5

Tomamos nosso café da manhã com calma, curtindo nossa última manhã de travessia. Contando com o trecho de descida ao Holly Lake e subida de volta, havíamos andado quase 18 Km no dia anterior. Sabíamos que hoje a caminhada terminaria cedo e somente às 13:30 chegaria o nosso translado de volta ao início da travessia, onde havíamos deixado o carro estacionado. Às 8:40 retomamos a descida do Paintbrush Canyon, em direção às margem do Phelps Lake. Com uma hora de percurso enxergávamos o espelho d'água do lago logo abaixo, confirmando nossa proximidade ao final do trajeto. A trilha alcança o Phelps Lake numa garganta d'água bastante estreita, onde construíram uma ponte que nos levou à sua outra margem. Continuamos seguindo a margem do lago em um trecho já bem mais estruturado, onde logo percebemos o aumento considerável do número de pessoas na trilha. Às 10:40 chegamos a placa da Leigh Lake Trailhead, oficializando o final da nossa Teton Crest Trail.

Phelps Lake. As montanhas logo atrás são o Mount Saint John e Rockchuck Peak

Estávamos muito felizes com nossa conquista e, mais uma vez, fazia um lindo dia de sol. Relaxamos na margem do lago admirando o Mount Saint John e Rockchuck Peak, bem à nossa frente. Num plano mais avançado, a Symmetry Spire e a Teewinot Mountain. Após mais algumas partidas de Copas Fora, chegou nosso translado, pouco antes do horário combinado. Parte do grupo saiu para resgatar o carro e outra parte permaneceu aguardando no Phelps Lake. Em cerca de 1 hora e 40 minutos estávamos todos no nosso carro, mais uma vez rumando para a Colter Bay. Como não tínhamos reservas para o acampamento, nossa tarefa prioritária era tentar vagas para as nossas duas últimas noites. Ao chegarmos lá, havia uma pequena fila de carros fazendo o check-in. Apesar disso, conseguimos nos instalar. Montamos as barracas e partimos para a devolução dos bear canisters no Visitor Center da própria Colter Bay Village. Obrigações cumpridas, finalmente pudemos curtir um merecido banho de chuveiro e jantar no restaurante.

05/09) Grand View Point & Jackson

Nosso plano para o último dia no Grand Teton era fazer uma trilha na parte nordeste do parque, região do Emma Matilda Lake e Two Oceans Lake. Havíamos decidido, no entanto, que antes de partirmos para caminhada faríamos um passeio de carro com objetivo de avistamento da fauna. Acordamos bem cedo e pegamos a estrada ainda no escuro. Queríamos estar a postos logo nas primeiras horas da manhã, momento que costuma ser mais favorável para encontrar os animais. Rodamos quilômetros sem ver nada de especial. Nenhum urso surgindo em meio às árvores, nenhum alce pastando nos alagados, nenhum veado atravessando a pista na frente do nosso carro. Até mesmo no Willow Flats, só se via algumas cabeças do rebanho de cervos que algumas vezes vimos por ali. Ou seja, não adianta tentar marcar encontro com a vida selvagem. Ela gosta de se apresentar quando menos se espera. Mas não podíamos reclamar. Até então estávamos tendo uma viagem repleta de encontros com animais. Mais até do que eu esperava.

Visual a partir do Grand View Point

Partimos então para a região nordeste. Estacionamos próximos à trailhead e às 9:50 colocamos as mochilas nas costas para a última trilha da viagem. Seguimos em direção ao Two Ocean Lake, numa percurso com trechos ligeiramente mais íngremes do que a média que experimentamos no parque. A trilha não tem grandes atrativos até alcançar o Grand View Point. Esperávamos ter ali um belo visual dos lagos, mas tivemos uma bela surpresa! O ponto oferece uma belíssima visão da cadeia de montanhas dos Tetons. De certa forma, um visual similar ao que vimos da estrada, porém, graças a altura e a distância adicional, muito mais abrangente. Além disso, também conseguimos observar os lagos. Entretanto, depois daquela visão das montanhas, eles não foram impactantes. Curtimos a vista e decidimos não descer até os lagos. Já havíamos caminhado o bastante e decidimos que seria interessante fazer uma visita à cidade de Jackson. Chegamos de volta ao carro pouco depois do meio-dia.

Os arcos com galhadas de cervos em Jackson

Jackson é uma pequena cidade, essencialmente turística, que funciona como um dos portais de entrada para o Yellowstone e o Grand Teton. Havíamos passado por ela na nossa chegada, mas devido ao horário avançado, não tivemos chance de visitá-la. A cidade é muito simpática e sua arquitetura "com um quê de faroeste" chama a atenção dos que passam por ali. Almoçamos numa hamburgueria, passeamos na praça com os famosos arcos construídos com galhadas de cervos, visitamos algumas lojas e retornamos para o Grand Teton. De volta ao parque, tentamos subir a estrada da Signal Mountain, mas estava fechada por conta da alta atividade de ursos na área. Passamos o final de tarde na Colter Bay, tomando cervejas à margem do Jackson Lake. Fechamos o dia experimentando a pizza da Leek's Marina, tradicional no local.

06/09 - 09/09) Grand Teton → Rio de Janeiro

Acordamos ainda no escuro para desmontar o acampamento pela última vez. Ocorreram pancadas de chuva durante a madrugada, então estávamos secando as barracas rapidamente enquanto aproveitávamos um momento de estiagem. Tínhamos um dia longo de estrada pela frente, então pouco depois das 6:00 estávamos partindo. O café da manhã seria feito dentro do carro para agilizar. Fizemos uma rápida passagem pela Ranger Station de Colter Bay, ainda fechada naquela hora. Depositamos à sua frente uma sacola com nossos bear sprays, endereçados ao National Park Service. Não poderíamos embarcar com eles no avião. Deixamos como doação. Tomamos a Teton Park Road, novamente para o sul, e fomos admirando aquelas montanhas pela última vez. Agora porém o tempo estava fechado, com algumas rajadas de garoa. Deixamos o parque muito felizes por todas as experiências que vivemos ali, e ainda nos sentindo sortudos pela ótima janela de tempo que pegamos durante nossa estadia.

Passagem pela pequena cidade de Afton, no retorno do Grand Teton para Las Vegas

Ainda nas primeiras horas de viagem, passávamos por uma área inabitada e achamos que seria uma boa oportunidade para encostar o carro e fazer um teste do bear spray. Havíamos reservado um com este propósito. Avaliamos a direção do vento e disparamos. A marca usada foi a Counter Assault. O spray sai com bastante pressão, mas gera um cone de dispersão menor do que esperávamos. Essa observação reforçou a recomendação de que a arma deve ser utilizada a curta distância. Durante os disparos, também notamos que todos mantiveram os braços relativamente paralelos ao solo. Talvez para facilitar a visualização da saída do produto, ou para mantê-lo o mais longe possível do rosto. Porém, em um ataque real, precisaremos manter o jato para baixo, na direção do urso agressor. Efetuamos alguns disparos até esvaziar a embalagem. Quanto à duração, pareceu condizente com o divulgado pelo fabricante. Por fim, notamos que após um disparo prolongado, o conteúdo escorreu por fora da embalagem. Lavamos as mãos com água em abundância e, mesmo após a lavagem, o contato das mãos com o rosto causou irritação. Uma evidência de que o seu uso, de fato, inspira muita atenção.

Começava a anoitecer quando chegávamos de volta à Las Vegas. O dia seguinte foi dia de compras, incluindo um retorno à REI, desta vez a filial de Boca Park. Às 19:00 devolvemos o carro alugado, e tomamos o shuttle que liga o prédio das locadoras ao aeroporto. Embarcamos às 23:30 do dia 07/09. Fizemos conexão novamente em Miami e tomamos o voo para Guarulhos. Chegamos em São Paulo às 18:45 do dia 08/09. Ainda precisávamos encarar a estrada até Rio. Tomamos um Uber para o terminal Tietê, que estava lotado. Atravessamos o terminal com nossas bagagens gigantes e embarcamos no ônibus às 21:30. Chegamos à rodoviária do Rio de Janeiro pouco antes das 04:00 do dia 09/09, perfazendo pouco mais de 24 horas de viagem, desde nossa saída de Las Vegas. Estávamos arrasados de cansaço, mas muito satisfeitos. A viagem ao Grand Teton havia sido fantástica!

Por: Ângelo Vimeney
Publicado em: 06/10/2019

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